Rebucados de funcho

segunda-feira, janeiro 30, 2006

António Gedeão

Balada da neve

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Cai neve cai neve...

Pois é, ontem pela primeira vez na minha vida vi neve ao vivo, foi uma experiência estimulante. Estava no C.C. Colombo quando ela branquinha começou a cair e como por magia as pessoas automaticamente começaram a dirigir-se para as janelas e portas para melhor poderem apreciar o espectáculo de rara beleza, e registarem-no através dos telemóvel e alguns mais precavidos com máquina fotográficas.
Perguntam o que tem isto de estimulante??
Pela primeira vez em muito tempo, vi juntar-se um grupo de 100 ou 200 pessoas estranhas umas às outras que irradiavam de felicidade (e de frio) e partilhavam esse momento uns com os outros, comentando e registando.
É esta partiha desinteressada que eu acho estinulante, como coisas simples e belas podem juntar as pessoas.
Tomara que nevasse mais vez em Lisboa...

quinta-feira, janeiro 26, 2006

A Azinhaga do Besouros

Onde estavam os meninos e meninas da Associação Solidariedade Imigrante quando aqueles moradores souberam pela primeira vez que não iriam ser realojados???
Onde estavam quando em Agosto o presidente da Amadora resolveu adiar a demolição das casas??
Porque é que não ajudaram estas famílias a arranjarem uma solução habitacional, que poderia passar pelo crédito ou pelo arrendamento??
Eu digo-vos, não estavam, não havias câmaras de televisão por perto e eles não estavam lá, se falarem com qualquer ex-morador da Azinhaga dos Besouros dizem-vos o mesmo. A comunidade até sente-se incomodada por esta "ajuda" que veio mais uma vez e infelizmente marcar a comunidade caboverdana em Porugal pela negativa.
Abriram os noticiários jovens brancos, em cima das casas a serem obrigados pela polícia a sair para que a Câmara Municipal da Amadora pudesse continuar o seu trabalho. No dia seguinte barricaram-se dentro da casa da D. Adriana coitada o que deve ter tido que aturar...tudo porque uns desocupados cheios de valores mas inconscientes, tomam a desordem como um rito de passagem para a idade adulta...
Meus amigos não há necessidade, compreendo que queiram promover a vossa Associação façam-no de forma produtiva, informando as pessoas e ajudando-as as resolverem os seus problemas que não passam só pela a habitação, mas também pela legalizaçao, saúde, emprego etc.
Confrontar a polícia não é trabalho social

Bem vindos aos rebuçados de funcho


Estes são alguns jovens do Bº de Stª Filomena, trabalho com eles há 2 anos num programa governamental ao nível do desenvolvimento de competências pessoais e sociais.
Ontem saiu num jornal "Correio da Manhã" uma notícia que me deixou alarmada não pelo conteúdo que sei que não é verdadeiro, mas sim pelas consequências negativas que poderá produzir numa comunidade já de si muitas vezes maltratadas pela comunicação social.
"Cova da Moura, Santa Filomena, 6 de Maio. Estes são nomes de bairros que aterrorizam quem vive ou trabalha na zona da Amadora. A criminalidade no concelho da Amadora está a tomar proporções alarmantes. Bairros como os da Cova da Moura, 6 de Maio e Santa Filomena albergam criminosos às centenas que aterrorizam a população com assaltos, por vezes praticados com violência e até com o assassinato das vítimas." in Correio da Manhã 25/01/2006
Os criminosos não são às centenas, mal de nós se assim fosse, poderão ser dezenas de mal intencionados e alguns até podem ser violentos mas não assassinam pessoas à toa. Nestes bairros existem também muitas pessoas de bem que não se revêm nas atitudes de alguns, que diariamente lutam por uma vida melhor como qualquer cidadão.
Senhores jornalista do Correio da Manhã tenham mais cuidado com o que escrevem, já atribuiram indevidamente a este bairro 2 assassinatos de elementos das forças policiais no ano de 2005 não queiram dificultar ainda mais a vida a estes miúdos que estão marcados pelo estigma do bairro.